Crises de crescimento
O Ensino Superior e as Empresas
Nos últimos 25 anos, o Ensino Superior em Portugal sofreu uma mudança sem paralelo, nem na sua história, nem na evolução de qualquer outro país da OCDE nesse período. O número de alunos foi multiplicado por dez, o número de instituições por 37. Surgiu o ensino politécnico e desenvolveu-se o ensino superior de iniciativa não-estatal. Acompanhando as tendências de democratização da sociedade, o acesso à educação generalizou-se. Este facto, associado ao aumento da natalidade que se verificou até aos anos 70, provocou uma procura extraordinária pelo acesso ao ensino superior, atingindo o seu pico em meados da década de 90.
A nova realidade
Entramos agora num novo ciclo. O número de candidatos ao Ensino Superior diminui desde 1995, último ano em que houve mais candidatos do que vagas. O número de jovens no escalão etário dos 18 anos continuará a diminuir até atingir o seu mínimo em 2015, reduzindo o universo dos possíveis candidatos.
Por sua vez, a sociedade mudou também profundamente. O paradigma da "Sociedade da Produção" foi substituído pelo da "Sociedade do Conhecimento". O factor produtivo mais importante é cada vez mais o conhecimento. As Universidades, como produtoras e reprodutoras de saber, vêem o seu papel reforçado, ganhando uma nova dimensão. A informação flui com uma facilidade e uma velocidade sem precedentes. Os meios de comunicação atingem massas cada vez maiores e, pela primeira vez, todo o Planeta se comporta realmente como se se tratasse de um único local. Aquilo a que se chama "globalização" coloca-nos num quadro de competição sem fronteiras, que nos obriga a ter uma consciência global se queremos agir com eficácia localmente.
É perante tudo isto que o ensino superior em Portugal se coloca. Perante a redefinição do seu próprio papel e a necessidade de responder ao que lhe é exigido. Podemos mesmo dizer que, mais do que responder, o que se impõe é que suscite novas exigências, assumindo-se como um dos motores para que Portugal vença o desafio da sociedade do conhecimento.
Contradições aparentes
Constata-se, surpreendentemente face à evidente carência de profissionais com formação superior na nossa população activa, que a taxa de desemprego de jovens licenciados duplicou entre 1992 e 1996. Se, por um lado, esta evolução pode ser explicada por uma "recepção difícil" ao grande contingente de jovens formados pelas universidades nesse período, por outro, pode indiciar algum desconhecimento mútuo entre empresas e universidades, não reconhecendo plenamente as primeiras a relevância da formação oferecida pelas segundas. Essa ideia parece ser confirmada quando importantes empresários afirmam à comunicação social que "as universidades não procuram conhecer as necessidades do mercado" ou que "se assistiu à explosão de cursos que se sabe à partida não terem qualquer tipo de procura no mercado". Estas teses saem reforçadas quando se observa que mais de 40% dos licenciados ouvidos num estudo de 1996 do DEPGEF consideram que lhes faltou formação prática.
As instituições de ensino superior têm que levar muito a sério estas críticas. A criação de cursos e a estruturação dos seus currículos não podem ser feitas à margem do mercado de trabalho onde os futuros diplomados se vão inserir. No entanto, as Universidades não devem cair no erro contrário de adequar de forma estrita a oferta de ensino superior às necessidades observadas num dado momento. Por duas razões que parecem óbvias: Em primeiro lugar, porque nada garante que um curso extremamente necessário no momento da sua criação o continue a ser quando saírem para o mercado de trabalho os seus primeiros diplomados, três a cinco anos depois. Em segundo lugar, porque o ensino superior não se esgota no objectivo de formar pessoas para funções ou profissões concretas, desempenhando um papel social muito mais vasto de criação e reprodução do saber, mesmo que este não tenha uma aplicação prática imediata.
As respostas necessárias
As instituições de ensino superior têm assim que oferecer à sociedade cursos de formação inicial de elevada qualidade, suficientemente práticos para poderem ser úteis, mas também suficientemente flexíveis e abrangentes para manterem o seu valor ao longo do tempo e enquadrarem formações posteriores. O ensino superior poderá, aliás, aproveitar o campo da formação ao longo da vida para reposicionar o seu papel social, atraindo novos públicos para uma oferta mais diversificada. Para que isso seja possível, as universidades não se podem limitar às pós-graduações convencionais. Devem abrir as suas portas a outro tipo de ofertas, eventualmente de duração mais curta e compatíveis com as disponibilidades de tempo dos seus destinatários, dirigidas mesmo a pessoas que não possuam uma formação superior prévia.
Esta poderá ser a chave para o ensino superior demonstrar à sociedade o valor da sua formação. Oferecendo cursos de formação inicial de "banda larga" e acções de formação contínua especializadas, atraindo os próprios executivos e empregadores, demonstrando-lhes na prática o valor das formações que oferece. É óbvio que este reposicionamento não é fácil nem instantâneo. Colide com os interesses e a lógica dominante, mas acabará por se impor, como condição de sobrevivência e pelos exemplos do sucesso de algumas instituições de ensino superior estrangeiras e, felizmente, também portuguesas.
Rui Grilo
(artigo publicado no Jornal da
Universidade de Évora n.º 17, Novembro de 2000)