A semana mágica

Em frente à Embaixada dos Estados Unidos, numa das primeiras noites em que ninguém dormiu naquela zona de Lisboa, um jovem casal levou o filho, com apenas três ou quatro anos, para a manifestação por Timor. Não foi de estranhar que, com o cansaço e o barulho, a criança tivesse começado a chorar, pedindo para voltar para casa. Exemplar foi o que se seguiu. Os dois jovens pais começaram a explicar ao filho que num sítio muito longe, quase do outro lado do Mundo, havia crianças como ele que não conseguiam dormir, que não tinham que comer e cujos pais tinham sido obrigados a fugir. A única esperança dessas crianças, prosseguiram, era que eles continuassem ali, o tempo que fosse preciso, até que quem as podia ir ajudar decidisse fazê-lo. A criança parou de chorar e os seus pais, tal como os milhares de pessoas que estavam com eles, continuaram na rua, a gritar de indignação pelo que se estava a passar a muitos milhares de quilómetros de distância.

Tenho a certeza que situações como esta se devem ter repetido por todo o país, durante aquela semana mágica em que tantos portugueses, de todas as idades, começaram por se encontrar em vigílias espontâneas e acabaram rumo a Madrid, aos milhares, para poderem gritar bem alto a sua revolta frente à Embaixada da Indonésia. Foi impressionante assistir (e participar) nisto tudo.

Provavelmente pela primeira vez desde o 25 de Abril de 1974, o Povo Português agiu de forma colectiva, com uma força, um empenho e uma imaginação surpreendentes. Trinta e três mil pessoas enviaram faxes para a sede da Organização das Nações Unidas. As caixas de correio electrónico do Secretário-Geral da ONU, da Presidência dos Estados Unidos e do Governo Indonésio ficaram bloqueadas com todas as mensagens que foram enviadas, ao ponto desse tráfego ter congestionado os sistemas dos principais fornecedores de acesso portugueses. As votações sobre esta questão que a CNN ou a BBC promoveram nas suas páginas na Internet tiveram participações maciças. Usando o poder da comunicação, as imagens dum país parado durante três minutos em solidariedade com outro povo correram todo o Mundo, tal como a vista aérea do cordão humano de dez quilómetros que uniu as embaixadas dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Subitamente, muitas casas vestiram-se de branco, tal como as pessoas que nelas entravam e saíam . Até os carros se tornaram militantes desta causa, com faixas brancas e palavras de ordem. Quem tem a missão de nos representar também não descansou e deu expressão a esta indignação colectiva junto de quase todos os poderes desta ordem mundial.

Depois dessa semana, a Indonésia aceitou a entrada em Timor de uma força internacional. A ONU demorou mais uma semana a enviar essa força que, por sua vez, tarda em controlar efectivamente todo o território. Ainda hoje não se sabe quantos milhares de pessoas terão morrido. Os culpados deste genocídio ainda estão por prender e muitos ficarão impunes. Mas, depois desses dias, sabemos que nada poderá ficar como era antes. Porque temos a certeza que no futuro, sempre que for preciso, há dez milhões de vozes prontas a gritar e que a força do seu grito pode chegar bem longe. Pode chegar a 14.000 quilómetros de distância, a uma terra chamada Timor Loro Sae.

Rui Grilo
(artigo publicado no Jornal da Universidade de Évora n.º 11, Outubro de 1999)