Timor Lorosae tarda a despertar
Entre as cicatrizes e a esperança
Abril marca o final da estação das chuvas e pinta de verde a paisagem tropical de Timor. Por detrás desse deslumbrante cenário natural está uma terra devastada pela violência. Há apenas sete meses, quase todos os timorenses foram obrigados a fugir de suas casas. A intervenção internacional restaurou a esperança, mas as cicatrizes desse Setembro sangrento tardam em sarar.
"Bem-vindo ao mais jovem país do Mundo". É assim que um cartaz recebe quem chega ao Aeroporto Internacional de Díli. Uma designação pomposa para uma única pista, servida por um par de salas de apoio onde funcionários das Nações Unidas carimbam os passaportes dos recém-chegados e lhes dizem "tem 90 dias, boa estadia".
À saída do aeroporto, o calor húmido sufoca os mais desprevenidos. "É todos os dias assim". Francisco Prata, farto da rotina de Lisboa, abraçou o desafio de vir para a delegação local do Instituto Camões. A dureza do clima já não é novidade para ele. Vinte e poucos anos, roupa leve, óculos discretos e um olhar confiante. Está em casa. "Era ali o Hotel Mahkota". Era, porque agora está totalmente destruído.
As sombras de Díli
Quem chega a Díli pode pensar que entrou numa cidade fantasma. Quase todas as casas foram consumidas pelo fogo e estão ainda abandonadas. É junto ao porto que se vê que algo começa a mudar. O antigo palácio do governador está recuperado e é agora a sede da administração transitória das Nações Unidas – a UNTAET. Quase em frente, está atracado o hotel flutuante Olympia, segundo Francisco "o sítio mais seguro para almoçar". Talvez por isso, é um ponto de passagem obrigatório para a maior parte dos estrangeiros no território.
Francisco aponta. "É ali que estão quase todos os serviços portugueses". Num edifício acabado de recuperar identificam-se os logotipos do Banco Nacional Ultramarino, dos Correios, e do Instituto Camões. A presença do único banco a funcionar no território explica a multidão que todos os dias lá se encontra. Nas ruas próximas os vendedores ambulantes aproveitam para oferecer quase tudo. Água, gasolina, latas de Coca-Cola e até panos tradicionais timorenses, os Tais.
Timor tem a estrutura etária típica de um país do Terceiro Mundo. Quase metade da população tem menos de 15 anos e só duas em cada 100 pessoas têm mais de 64 anos. É talvez por isso que se vêem tantas crianças em Díli. Em grupos, percorrem as ruas vendendo tangerinas verdes e interpelando quem passa. No porto, tomam banho ou brincam debaixo da sombra de grandes árvores centenárias.
Missões de risco
São estas crianças o centro do trabalho do Padre João Felgueiras. Português, missionário jesuíta com 78 anos de idade, os traços carregados do seu rosto impressionam. "É aqui que quero ficar quando morrer". Está em Timor há 30 anos, menos cinco que o Padre Martins, também jesuíta e português, que chegou pouco tempo antes da Indonésia invadir o território. Os dois partilham a sua casa, em Lahane, um bairro de Díli, com as centenas de crianças e jovens que os procuram. Com a ajuda de professores timorenses e portugueses estão a pôr de pé o Centro de Santo Inácio de Loyola, onde se ensina português, história, educação cívica e "tudo os que eles precisem".
Durante muito tempo foram a única presença portuguesa na ilha. "Se os indonésios soubessem metade do que fazíamos já estávamos mortos há muito tempo". Em Setembro escaparam por pouco. "Depois da divulgação dos resultados do referendo ouvimos tiros em toda a cidade". Mesmo assim, só quando viram as suas vidas em risco é que se refugiaram em Dare, no Seminário. Mas as milícias não pararam em Díli. O Seminário foi atacado e seguiram para as montanhas. Mas não sem antes voltarem a casa para enterrar outro missionário, barbaramente assassinado pelas milícias.
Os olhos de Paulino contêm a custo as lágrimas quando lembra esses dias. "Ainda é difícil lembrar". Há oito anos conduzia um autocarro pelas estreitas e sinuosas estradas timorenses, sempre com medo de se cruzar com um carro do exército indonésio "não se encostavam à berma e obrigavam-me a sair da estrada". Um dia levou uma jornalista para falar com as Falintil e teve que fugir. "Se me encontrassem, estava morto". Esteve oito anos em Jakarta e só voltou a Timor quando foi hora de votar no referendo.
As estradas de Timor são também velhas conhecidas para Tonito. Apesar de trabalhar na oficina do tio, o baixo salário obriga-o a estar disponível sempre que tem a oportunidade de fazer um biscate como condutor para uma empresa de aluguer de automóveis. Tonito lembra com saudade o mês que passou em Portugal como refugiado "até nos levaram a Fátima e ao futebol". Os 24 contos mensais que recebe hoje pelo seu trabalho são menos do que o subsídio que recebia quando esteve em Portugal, "mas o que importa é que agora somos independentes".
Caminhos difíceis
Quarenta quilómetros de estrada perigosa separam Díli de Aileu, onde estão acantonados os soldados das Falintil. Apesar de estarem num vale fértil, onde já se cultiva o arroz, sobrevivem com dificuldades enquanto a UNTAET não decide o que quer deles. "Entretanto, não temos nada". Falur Rate Laek, Comandante da Região III das Falintil, fala português com uma correcção notável. O desencanto com o que se tem passado nos últimos meses é óbvio nas suas palavras, "muitos países prometeram ajuda, mas só Portugal nos tem valido".
As tropas das Falintil têm razões para estar descontentes. Depois de anos nas montanhas a combater os invasores indonésios, vêem-se colocados à margem do processo de independência ao qual dedicaram a sua vida. "Queremos ajudar, mas não nos deixam". As próprias tropas da Austrália e Nova Zelândia são vistas com desconfiança. "Querem é explorar as nossas riquezas", acusa o Comandante Falur.
Mais diplomata, o Padre Filomeno Jacob está "preocupado" com os atrasos na cooperação internacional. Doutorado em Oxford, esteve profundamente empenhado na preparação do recenseamento para o referendo de Agosto e é hoje o responsável pela Educação dentro do Conselho Nacional da Resistência Timorense. "A Educação é a nossa oportunidade". Neste momento, o seu tempo é dedicado quase por inteiro à preparação do próximo ano lectivo. Em Outubro quer ter as escolas primárias a funcionar normalmente para que o seu país possa iniciar um novo ciclo.
Para Filomeno Jacob, o "maior risco é o desemprego". A confirmar as suas palavras, dezenas de jovens acumulam-se pelas ruas de Díli, com o olhar vazio de quem espera. Debaixo do Sol abrasador do meio-dia, as sombras das árvores são pontos de encontro e de conversa, nem sempre pacífica. Consciente dos riscos que corre, Timor Lorosae está à espera. O "mais jovem país do Mundo" quer ter a oportunidade de realmente o ser.
Rui Grilo
(reportagem publicada na Gazeta do Sul, Edição Évora, 30 de Junho de 2000)